sexta-feira, 14 de setembro de 2007

Estrela 13 - Chloroleucon tortum



Chloroleucon tortum (Mart.) Barneby & J.W.Grimes

Chamada vulgarmente de Jurema, Jacaré, Tataré e outros nomes, esta árvore nativa de Búzios e Cabo Frio (segundo Pio Corrêa vai do Rio de Janeiro até o Pará) é uma leguminosa incrivelmente retorcida. Até seu legume (legume em botaniquês designa fruto seco que se abre por duas fendas laterais) contorce-se a ponto de formar, não uma vagem, com silhueta de vagem, como as das outras leguminosas, mas uma bolota enovelada que lhe valeu o antigo nome científico Pythecolobium que significa orelha de macaco.

Roberto Burle Marx a usou bastante em jardins – há vários grupos no Aterro do Flamengo e nos jardins da Lagoa Rodrigo de Freitas no Rio de Janeiro – e, maravilhado, fez inúmeros desenhos do exemplar do SRBM, nos quais ressaltou o tronco bicolor, descamante e convulsionado, onde a aversão desta espécie à linha reta é mais conspícua.

Desenho de R. Burle Marx - 1964

terça-feira, 11 de setembro de 2007

Estrela 12 - Copernicia cerifera


Copernicia cerifera M.

Esta é a Carnaubeira ou Copernicia cerifera, a palmeira que nos dá a cera.

O Sr. Johnson, um dos da Johnson & Johnson, comprou em Fortaleza uma área de mais de um milhão e quatrocentos mil metros quadrados (que depois doou à Universidade Federal do Ceará) para testar quantas Copernicia pudesse e chegou à conclusão de que a cera da velha e boa carnaúba era realmente a mais adequada.

Roberto Burle Marx viu nela outras qualidades e a usava em paisagismo. Segundo Pio Correa, chega a 40m de altura e a 200 anos de idade.

No Sítio existem três delas. Possuem aspecto quase extraterrestre, tal a estravagância de feições que absolutamente não se prestam a poetices do tipovento que balança as folhas...” etc.. Não! Esses rígidos leques fazem algo muito diverso de balançar suavemente: tremeluzem (o verbo existe), isto é, cintilam ao sol enquanto vibram em alta freqüência à mais leve brisa. No fuste, as bainhas remanescentes das folhas descartadas acrescentam estilo (etimologicamente estilo = fuste) ao design eriçado, reafirmando a originalidade de uma das mais belas palmeiras brasileiras.

Estrela 11 - Pandanus baptisti


Pandanus baptisti Hort.

Existem mais de 700 espécies deste gênero, com 1216 nomes encontrados. Esta é a última, de mais ou menos meia dúzia, a ser utilizada em paisagismo por aqui.

Para ser estrela, tamanho não é documento. É o caso deste pândanus, um pigmeu. Diferente de seus primos agigantados, os P. pacificus e P. tectorius, a estrela desta vez funciona como planta de cobertura de terreno.

Para quem prefere não ter que ficar de cócoras, arrancando mato, apresenta a preciosa vantagem de alastrar-se (alguns pândanus realmente caminham) sem permitir que ervas invasoras sobrevivam no mesmo canteiro.

Possui, como mais expressivas características, a cor – uma vibrante e luminosa mistura de verde e amarelo em finas listras – e a anfibiovalência – palavra (cuja inexistência acaba de ser corrigida) que designa sua capacidade recém descoberta (ao menos, por nós) de viver tanto na terra quanto em canteiros aquáticos que simulem alagados rasos.

Lembrei-me que batismo significa imersão. Fui pesquisar se esse baptisti se refere a isso ou é homenagem a algum Batista, mas não achei nada. Batizar também significa nomear. Talvez o Hort. estivesse cansado de tanto inventar nomes, e colocou esse para lembrá-lo do que tinha que fazer. Absurdo? Pois consta que o grande Linnaeus, pelo mesmo motivo, batizou um gênero inteiro como Quisqualis que significa ‘quem, o quê’. Enfim, se alguém souber a verdade, por favor, me avise.

As fotos mostram-no na tradicional utilização, em canteiro terrestre, e em plena função no seu novo emprego aquático.

O endereço do habitat original dos Pandanus baptisti é: Ilha Nova Britânia, Arquipélago Bismarck, Papua-Nova Guiné.

quarta-feira, 5 de setembro de 2007

Estrela 10 - Euryale ferox



Euryale ferox Salisb.

Quem seria capaz de imaginar que existisse no planeta algum vegetal comparável à Victoria regia? Pois... existe! Não tão espetacular, é claro – seria exigir muitomas, ainda assim, incrível. Ela perde da Victoria, nossa íntima, em dois itens importantes: não tem aquelas conspícuas paredes verticais de 15cm nas bordas das folhas e sua flor é muito menor. Mas as folhas possuem área equivalente e a mesma estrutura imersa, capaz de grandes vãos. Além disso, o desenho delicado em linhas vermelhas que interligam os numerosos espinhos (daí o ferox) da vasta superfície é uma autêntica chinoiserie.

Trata-se da Euryale ferox do Yang-tse e da Asia tropical. Pertence à familia Nymphaeaceae ou, às vezes – o que parece exagero de preciosismo botânicoEuryalaceae.

É a mais recente estrela do Sítio. Em menos de 6 semanas de plantada apresentava folhas com 1,5m de diâmetro.

Consta que suas sementes são comestíveis e utilizadas na medicina chinesa. A tradução do nome, via o inglês foxnut, é castanha de raposa.

Nas fotos um detalhe notável: o botão da flor, quando emerge, abre caminho através da própria folha caso esta represente obstáculo. No afã de aparecer fora d’água nem se dá ao trabalho de contorná-la, tornando-se o único ser vivo não humano auto-piercing de que se tem notícia.

segunda-feira, 3 de setembro de 2007

Estrela 09 - Merianthera burle-marxii

Merianthera burle-marxii Wurdack

A estrela desta vez é um verdadeiro ‘Popeye’ do reino vegetal. Não, nada a ver com espinafre. A razão do paralelo está na anatomia singular do simpático personagem: assim como seus antebraços são mais robustos que os próprios braços, também os galhos da planta, ao contrário do que seria de se esperar, engrossam perto das extremidades.

Trata-se de um arbusto atarracado que ainda produz lindas flores de tonalidade entre violeta e vermelho. Pertence à família Melastomataceae (bocas-negras), a mesma das Quaresmeiras.

Roberto vibrou quando a descobriu, ainda mais porque o cenário era também deslumbrante. É endêmica de um vale que mais parece o depósito dos pães-de-açúcar que Deus fez com a intenção inicial de brindar determinadas vastidões geográficas com um monumento cada, mas, por algum motivo, deixou-os todos amontoados por lá. São monolitos graníticos, a perder de vista, alguns mais pontiagudos que outros, marcando um ritmo de gigantes ao longo do sinuoso e límpido Pancas, um afluente do Rio Doce, próximo a Colatina, Espírito Santo. Recentemente a área toda foi transformada no Parque Nacional dos Pontões Capixabas.

Mais do que uma visita, o local merece que algum Beethoven lhe dedique uma sinfonia.


Foto de Harri Lorenzi



Parque Nacional dos Pontões Capixabas
Foto de José Tabacow