sexta-feira, 31 de agosto de 2007

Estrela 08 - Ficus, sp

Ficus sp.

Nascida epífita e espontaneamente, semeada no andar superior da floresta por algum pássaro, esta impressionante árvore resplandece além da Pérgola da Flor de Jade*, exibindo poderosas raízes que contrastam com as sombras silvestres e com a folhagem verde-escura de uma monstera escandente em seu tronco.

É uma árvore que cresceu na contra-mão do usual e comportado de-baixo-para-cima da maioria. Quem a imagina que é pra de centenária, mas foi devido a um expedientenada louvável” que, em menos de 40 anos de pura “ingratidão”, chegou a alcançar o avantajado porte: ela estrangulou sua hospedeiraoutra árvore, que lhe serviu de berço e de escada – da qual se nota ainda algum vestígio, quase totalmente emparedado em celulose.

Até o dia em que o doutor Cornelius C. Berg (talvez atualmente o maior especialista no gênero) nos visitou, tínhamos por certo que era um espécime de Ficus glabra, mas ele nos esclareceu que não (!) e explicou o óbvio ululante: simplesmente a figueira não era glabra, isto é, suas folhas de fato têm uma penugem superficial, com textura entre veludo e lixa.

Perguntei então que raios de espécie era aquela e a resposta foi a melhor que podia haver para enriquecer o acervo botânico do Sítio Roberto Burle Marx: ele disse que não sabia.

*Ver “Estrela 04”

quarta-feira, 29 de agosto de 2007

Estrela 07 - Heliconia vellerigera

Heliconia vellerigera Poepp.

Num belo dia de 1998, um jardineiro me chamou: acontecia uma coisa espantosa num dos sombrais da coleção. Estava florescendo, e pela primeira vez no Sítio, uma determinada helicônia.

Não era isso o motivo do alarme, mas o que vinha à luz: algo híbrido, entre lagosta, pela forma e pela cor, e macaco, por ser pendular e... peluda!

Ninguém no Sítio tinha visto nada parecido (em termos vegetais, pelo menos). Roberto, se a conhecia, nunca nos preveniu.

Hoje, pesquisando pelos aplicativos de busca da Internet – Google, MSN e Copernic –recebi sempre a mesma resposta: “Sua busca não obteve resultados”.

Foi identificada por ninguém menos que o professor Luiz Emygdio de Mello Filho, nosso insubstituível Conselheiro, e confirmada pelo colecionador José Abalo que teve a coleção de helicônias maior do mundo. Ele disse que esta talvez fosse do Panamá, porque em qualquer corte transversal que se faça naquele país, encontram-se coisas surpreendentes do reino da botânica.

Harri Lorenzi, no livro As Plantas Tropicais de R. Burle Marx, atribui sua procedência às florestas úmidas de Colômbia, Peru e Equador.

Enfim, está ela, em todo seu bizarríssimo esplendor.

terça-feira, 28 de agosto de 2007

Estrela 06 - Alcantarea edmundoi


Alcantarea edmundoi Leme

Alguém que me ouça falar de uma bromélia que, quando está em flor, tem 4 metros de altura certamente pensará que é conversa de pescador transposta para o reino da botânica. No entanto, trata-se da mais pura verdade. Refiro-me à Alcantarea edmundoi Leme, que floresceu em março de 2006, pela primeira vez, no Sítio.

A designação genérica foi feita em honra de Dom Pedro II, cujo nome todo era Pedro de Alcântara João Carlos Leopoldo Salvador Bibiano Francisco Xavier de Paulo Leocádio Miguel Gabriel Rafael Gonzaga – quase tão longo quanto esta Alcantarea é alta. o nome específico homenageia o botânico Edmundo Pereira (1914-1986) que dedicou a maior parte de sua carreira, no Jardim Botânico do Rio de Janeiro, à família Bromeliaceae.

Segundo o doutor Elton Leme – o botânico que a classificou e a quem agradeço as informações – esta espécie:

- é natural do litoral sul do estado do Rio de Janeiro;

- é “endêmica dos paredões graníticos justamarítimos no domínio da Mata Atlântica baixo-montana”;

- é parente próxima da Alcantarea imperialis, mas difere desta em dois aspectos principais: cresce na baixa altitude e suas flores são noturnas, sendo polinizadas por morcegos ou mariposas.


segunda-feira, 27 de agosto de 2007

Estrela 05 - Astronium graveolens



Astronium graveolens Jacq.

Dentre as árvores do Sítio, destaca-se uma que tem nome de gente: Gonçalo Alves. Porquê? Não consegui descobrir e, dentre as hipóteses explicativas, certamente muitos considerariam excessiva “forçação de barrasuspeitar de que o nome científico graveolens – cheiro forte – que serviu para denominar a deliciosa e brasileiríssima graviola, tenha nesse caso sido brutal e comicamente transformado no gentílico português. Enfim, aqui na região, de onde também é nativa, a linda árvore chama-se Batam.

Pertence à família Anacardiácea, a mesma da mangueira e do cajueiro. (Esse nome é devido ao fruto em forma de coração de algumas de suas espécies.)

É árvore que atinge 90cm de diâmetro no tronco e mais de 35m de altura. A maior do Sítio está com uns 20m. É madeira de lei, tão apreciada que (além de Tigerwood e Zebrawood) é chamada comercialmente Kingwood (madeira rei).

Decídua, floresce quando está sem folhas. Sua copa não é muito densa e a folhagem fica toda na parte superior, como um teto, o que deixa à mostra a bela estrutura, com troncos e galhos bem proporcionados, fortes e claros, quase brancos.

Sendo madeira densa, seu crescimento é relativamente lento. Isso explica o quase ineditismo de seu uso em paisagismo. Entretanto dever-se-ia considerar um aspecto: árvores de madeira forte não se quebram com facilidade. as de crescimento rápido têm madeira fraca que cedo se arruína. Vide as Cássia siamea, tão freqüentes em arborização urbana. O tempo economizado em seu crescimento relâmpago é perdido, pois ficam estropiadas, como um exército de Brancaleone, e constituem testemunho de fracasso paisagístico por longo tempo depois de satisfeito o imediatismo de quem as plantou.

Apesar da vasta área de ocorrência – do sul da Bahia ao Rio Grande do Sul – o Astronium graveolens está na lista do IBAMA de espécies ameaçadas, na categoria "Vulnerável".

Estrela 04 - Strongylodon macrobothrys



Foto Harri Lorenzi

Strongylodon macrobotrys A. Gray – a Flor de Jade.

Dentre as atrações arquitetônicas do Sítio Roberto Burle Marx está a “casa” da estrela da vez. É um pavilhão de pouco mais de 400 m², composto de dois ambientes: pérgula (Pérgula da Flor de Jade) e cozinha (Cozinha de Pedra). As maiores festas do grande anfitrião que era Burle Marx tinham seu epicentro gastronômico neste localprojeto premiado pelo Instituto dos Arquitetos do Brasil em 1963, fruto de parceria com os arquitetos Haroldo Barroso e Rubem Breitman.

Esplendidamente integrado aos jardins e à natureza, o pavilhão é um espaço que reúne esculturas diversas, um painel de cerâmica, idéias inusitadas e características geniais: algumas paredes são formadas por pedras de antigas demolições, trabalhadas em cantaria; o teto sustenta um espelho d’àgua que transborda e forma uma cortina entre a cozinha e a pérgula, caindo num lago, naturalmente povoado de plantas aquáticas. Uma diferença de 1,80m entre os níveis de piso dos dois ambientes aumenta a altura da cascata e expõe a área sob a pérgula ao domínio visual dos visitantes ao mesmo tempo em que os aproxima para o exame das flores de Strongylodon macrobothrys A. Gray. Esta espécie exótica de trepadeira, conhecida popularmente como Flor-de-Jade, exibe em outubro/novembro flores de uma inacreditável tonalidade azul-esverdeada, em profusos cachos pendentes que atingem até 2 metros de altura. Roberto apaixonou-se ao vê-la na Indonésia. Disse que o pessoal tem que afastar as flores para passar e, para evitar este inconveniente, projetou sua pérgula com pé-direito duas vezes mais alto do que o usual.

– O tempo se encarrega de completar uma idéia – costumava dizer. Esta é uma das idéias que alguns anos depois de sua morte pôde ser contemplada em plenitude.

quinta-feira, 23 de agosto de 2007

Estrela 03 - Corypha umbraculifera


Corypha umbraculifera

Um raro espetáculo acontece novamente neste agosto. Dois espécimes de Corypha umbraculifera começaram a florir no Sítio. Esta palmeira, cuja vida tem duração variável entre 40 e 80 anos, é originária do Sri Lanka (antigo Ceilão) e floresce uma vez. Em compensação, é a maior inflorescência do reino vegetal. Acima da copa de folhas em leque, que começam a secar e cair, forma-se nova copa, de oito metros de diâmetro, constituída de mais de um milhão de pequenas flores brancas. Quase um quinto das flores oferecem sementes férteis e, cumprida sua parte na tarefa de perpetuação da espécie, a palmeira morre.

A primeira floração de Corypha no SRBM teve início uma semana depois da morte de Roberto, em 1994, e soou como homenagem e confirmação, pois consta que quando ele a plantou um visitante ocasional comentara que, se a planta levava tanto tempo para florir, ele não presenciaria. Resposta de RBM: "– Assim como alguém plantou para que eu pudesse ver, estou plantando para que outros a vejam!".

Todo o processo, desde o aparecimento dos primeiros sinais de florescimento até o fim, durou dois anos e meio. Na época, enviei 1000 sementes (uma porcentagem ínfima) ao Instituto Agronômico de Campinas para testes de germinação, visando maximizar o aproveitamento das preciosas (dada a raridade do evento) sementes. Para nosso espanto, isto se revelou totalmente inútil, mas... por excessivo sucesso! – praticamente todas as sementes germinaram, mesmo as que estavam nas mais adversas condições, como sobre pedras ou dentro d’água!

As fotos mostram o início e o auge de outra estonteante floração em 1998.

quarta-feira, 22 de agosto de 2007

Estrela 02 - Eucalyptus deglupta




Eucalyptus deglupta Blume

– Um dos gigantes do reino vegetal!
Era o que se ouvia na cerimônia simples que se seguiu a um dos infalíveis saraus domingueiros no sítio de Roberto Burle Marx, no início da década de 80. Roberto plantou, naquela tarde, 3 mudas desta árvore: uma em homenagem a seu irmão Walter, outra em homenagem a sua mãe de criação Anna Piazcek, e a outra... não me lembro, mas foi homenagem a alguém também.
Algum botânico ali presente disse que esta árvore é o maior dos eucaliptos e que em seu habitat natural chega a 100m de altura, mas isto talvez seja exagero. Os sites da Internet pesquisados, não dão mais que 225 pés, ou seja, 75 metros. Não importa, já é o suficiente para num futuro não muito distante tornarem-se as maiores árvores do Rio de Janeiro, visto que com apenas vinte e poucos anos, já estão com mais de 30m.
Seu tronco, que atinge um diâmetro de 240cm, tem um belo aspecto multicolorido, responsável pelo nome vulgar em inglês: rainbow eucalyptus (eucalipto arco-íris). Outros nomes vulgares: mindanao gum, amamanit, bagras, e kamarere. Sinônimos científicos: E. naudiniana e E. schlechteri. É nativo de Papua-Nova Guiné.

quinta-feira, 16 de agosto de 2007

Estrela 01 - Ficus pseudopalma


Ficus pseudopalma Blanco

Talvez o único espécime no Brasil hoje. Asiática, natural das ilhas Filipinas, foi classificada por Francisco Manuel Blanco (1778-1845).
Esse pé de planta tem uma história intrigante:

Quando dava aulas de paisagismo na Escola de Belas Artes da UFRJ, eu mostrava aos alunos as plantas e, de preferência, as identificava. No caso dos Ficus apelava freqüentemente para o “sp.” (termo que se utiliza quando se conhece o gênero e ignora a espécie). Era Ficus sp. aqui, Ficus sp. ali, até que uma aluna mais exigente reclamou. Passei então a levar para o campo o precioso livro-do-Carauta (Professor Jorge Pedro Pereira Carauta). Cada vez que nos deparávamos com uma figueira, tentávamos identificá-la com base em seus ensinamentos, dentre os quais encontrei a primeira notícia da estrela de hoje. A mera menção de seu nome causa um choque em quem conhece um mínimo de botânica. Como seria possível um fícus parecer (pseudo) uma palmeira (palma)? Relatava que havia um no Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Fomos procurá-lo. Estava perto da obra de implementação do play-ground e, para falar a verdade, se fosse uma dracena seria talvez insignificante, mas como fícus... era um espanto!!!
Falei dele para RBM. “– Como é isto?” foi sua reação. Expliquei o que tinha acabado de aprender e elenão poderia ser diferente – mostrou-se bastante interessado.
Ao voltar ao JBRJ com outra turma, por volta de 1985, tive a desagradável surpresa de ver que o raríssimo Ficus não mais existia. Comentei com Roberto que chegou instantaneamente a um estado de indignação quase furiosa.
Nosso saudoso mestre Roberto morreu em 1994. Em 1995 fui cedido pela UFRJ para ser diretor do SRBM e, uns três anos depois, ao passar por um lugar que percorria diariamente, enxerguei algo em que mal pude acreditar. estava, na floresta, mimetizando-se em meio a folhagens diversas, meio estiolado pela falta de luz solar direta, esticando-se para cima, com uns 8 metros de altura, porém sem chances de sobrepujar suas concorrentes, o Ficus pseudopalma! Fizemos o possível em termos de podas, abrindo espaço para aquela preciosidade. O professor Benjamin Ernani Diaz, que se tornaria conselheiro do Sítio (autor, em parceria com o professor Carauta, do livro Figueiras no Brasil – Editora UFRJ, 2002 –), confirmou – era mesmo ele.

Permanece o mistério: Roberto o plantou e esqueceu ou o fez ainda sem saber seu nome? Quando? De onde veio? Quem o trouxe para o Sítio?