quinta-feira, 11 de outubro de 2007

Estrela 14 - Ficus mysorensis var pubescens


Ficus mysorensis B. Heyne ex Roth var. pubescens Roth.

A parte meridional da Índia tem duas costas que formam os lados de um ângulo agudo apontado para o sul: a do Coromandel, banhada pelo golfo de Bengala, e a ocidental que é a Costa do Mysore, frente ao Mar da Arábia. A notória perspicácia dos meus leitores me autoriza supor que ambos já adivinharam de onde vem a estrela desta vez.

Aqui no Sítio, ela reina absoluta, superembasada num raizame que mais parece um congresso de sucuris promíscuas e que capta irresistivelmente a atenção de TODOS os visitantes.

Fazendo jus à má fama das raízes dos ficus, estas já deram uma rasteira mortal num pau-rei (Pterygota brasiliensis) vizinho. Agora, tudo indica que se preparam para desferir um golpe de misericórdia num incauto pau-ferro (Caesalpinia ferrea).

Quando cheguei ao SRBM para ser diretor, em 1995, estas raízes espaventosas ficavam invisíveis, submersas na folhagem oportunista de uma espécie de jibóia muito comum, o pé-de-galinha (Syngonium podophyllum). Roberto Burle Marx nos últimos anos de vida não as alcançava enxergar (sua deficiência visual já não permitia miradas mais longas que uns 10 metros) e seus ajudantes na época – ecologistas ferrenhos e ciosos defensores do patrimônio – nunca se atreveram a desnudá-las por conta própria com receios de sei lá o quê, talvez agredir a ecologia, talvez desfalcar o acervo do Sítio.

Hoje, o caudaloso afloramento radicular é um atrativo importante que rende até dividendos: já serviu de cenário para um generoso comercial de televisão do tipo avô-com-neto-curtindo-a-natureza e, vira-e-mexe, é contratado para figurar em fotos de moda. Sonho com o dia de ver La Bündchen enroscada em um de seus (nossos) tentáculos.

Seus figos são dourados e peludos, o que distingue a variedade, pois pubescens significa “característica de quem atingiu a puberdade”, daí os pêlos (esses botânicos... tsc). E quando tais frutos, que também são flores, com perdão da palavra, ornam a figueira, como diria Roberto, “– É ouro sobre azul!”.


Foto de 2003, quando o pau-rei ainda estava vivo

sexta-feira, 14 de setembro de 2007

Estrela 13 - Chloroleucon tortum



Chloroleucon tortum (Mart.) Barneby & J.W.Grimes

Chamada vulgarmente de Jurema, Jacaré, Tataré e outros nomes, esta árvore nativa de Búzios e Cabo Frio (segundo Pio Corrêa vai do Rio de Janeiro até o Pará) é uma leguminosa incrivelmente retorcida. Até seu legume (legume em botaniquês designa fruto seco que se abre por duas fendas laterais) contorce-se a ponto de formar, não uma vagem, com silhueta de vagem, como as das outras leguminosas, mas uma bolota enovelada que lhe valeu o antigo nome científico Pythecolobium que significa orelha de macaco.

Roberto Burle Marx a usou bastante em jardins – há vários grupos no Aterro do Flamengo e nos jardins da Lagoa Rodrigo de Freitas no Rio de Janeiro – e, maravilhado, fez inúmeros desenhos do exemplar do SRBM, nos quais ressaltou o tronco bicolor, descamante e convulsionado, onde a aversão desta espécie à linha reta é mais conspícua.

Desenho de R. Burle Marx - 1964

terça-feira, 11 de setembro de 2007

Estrela 12 - Copernicia cerifera


Copernicia cerifera M.

Esta é a Carnaubeira ou Copernicia cerifera, a palmeira que nos dá a cera.

O Sr. Johnson, um dos da Johnson & Johnson, comprou em Fortaleza uma área de mais de um milhão e quatrocentos mil metros quadrados (que depois doou à Universidade Federal do Ceará) para testar quantas Copernicia pudesse e chegou à conclusão de que a cera da velha e boa carnaúba era realmente a mais adequada.

Roberto Burle Marx viu nela outras qualidades e a usava em paisagismo. Segundo Pio Correa, chega a 40m de altura e a 200 anos de idade.

No Sítio existem três delas. Possuem aspecto quase extraterrestre, tal a estravagância de feições que absolutamente não se prestam a poetices do tipovento que balança as folhas...” etc.. Não! Esses rígidos leques fazem algo muito diverso de balançar suavemente: tremeluzem (o verbo existe), isto é, cintilam ao sol enquanto vibram em alta freqüência à mais leve brisa. No fuste, as bainhas remanescentes das folhas descartadas acrescentam estilo (etimologicamente estilo = fuste) ao design eriçado, reafirmando a originalidade de uma das mais belas palmeiras brasileiras.

Estrela 11 - Pandanus baptisti


Pandanus baptisti Hort.

Existem mais de 700 espécies deste gênero, com 1216 nomes encontrados. Esta é a última, de mais ou menos meia dúzia, a ser utilizada em paisagismo por aqui.

Para ser estrela, tamanho não é documento. É o caso deste pândanus, um pigmeu. Diferente de seus primos agigantados, os P. pacificus e P. tectorius, a estrela desta vez funciona como planta de cobertura de terreno.

Para quem prefere não ter que ficar de cócoras, arrancando mato, apresenta a preciosa vantagem de alastrar-se (alguns pândanus realmente caminham) sem permitir que ervas invasoras sobrevivam no mesmo canteiro.

Possui, como mais expressivas características, a cor – uma vibrante e luminosa mistura de verde e amarelo em finas listras – e a anfibiovalência – palavra (cuja inexistência acaba de ser corrigida) que designa sua capacidade recém descoberta (ao menos, por nós) de viver tanto na terra quanto em canteiros aquáticos que simulem alagados rasos.

Lembrei-me que batismo significa imersão. Fui pesquisar se esse baptisti se refere a isso ou é homenagem a algum Batista, mas não achei nada. Batizar também significa nomear. Talvez o Hort. estivesse cansado de tanto inventar nomes, e colocou esse para lembrá-lo do que tinha que fazer. Absurdo? Pois consta que o grande Linnaeus, pelo mesmo motivo, batizou um gênero inteiro como Quisqualis que significa ‘quem, o quê’. Enfim, se alguém souber a verdade, por favor, me avise.

As fotos mostram-no na tradicional utilização, em canteiro terrestre, e em plena função no seu novo emprego aquático.

O endereço do habitat original dos Pandanus baptisti é: Ilha Nova Britânia, Arquipélago Bismarck, Papua-Nova Guiné.

quarta-feira, 5 de setembro de 2007

Estrela 10 - Euryale ferox



Euryale ferox Salisb.

Quem seria capaz de imaginar que existisse no planeta algum vegetal comparável à Victoria regia? Pois... existe! Não tão espetacular, é claro – seria exigir muitomas, ainda assim, incrível. Ela perde da Victoria, nossa íntima, em dois itens importantes: não tem aquelas conspícuas paredes verticais de 15cm nas bordas das folhas e sua flor é muito menor. Mas as folhas possuem área equivalente e a mesma estrutura imersa, capaz de grandes vãos. Além disso, o desenho delicado em linhas vermelhas que interligam os numerosos espinhos (daí o ferox) da vasta superfície é uma autêntica chinoiserie.

Trata-se da Euryale ferox do Yang-tse e da Asia tropical. Pertence à familia Nymphaeaceae ou, às vezes – o que parece exagero de preciosismo botânicoEuryalaceae.

É a mais recente estrela do Sítio. Em menos de 6 semanas de plantada apresentava folhas com 1,5m de diâmetro.

Consta que suas sementes são comestíveis e utilizadas na medicina chinesa. A tradução do nome, via o inglês foxnut, é castanha de raposa.

Nas fotos um detalhe notável: o botão da flor, quando emerge, abre caminho através da própria folha caso esta represente obstáculo. No afã de aparecer fora d’água nem se dá ao trabalho de contorná-la, tornando-se o único ser vivo não humano auto-piercing de que se tem notícia.

segunda-feira, 3 de setembro de 2007

Estrela 09 - Merianthera burle-marxii

Merianthera burle-marxii Wurdack

A estrela desta vez é um verdadeiro ‘Popeye’ do reino vegetal. Não, nada a ver com espinafre. A razão do paralelo está na anatomia singular do simpático personagem: assim como seus antebraços são mais robustos que os próprios braços, também os galhos da planta, ao contrário do que seria de se esperar, engrossam perto das extremidades.

Trata-se de um arbusto atarracado que ainda produz lindas flores de tonalidade entre violeta e vermelho. Pertence à família Melastomataceae (bocas-negras), a mesma das Quaresmeiras.

Roberto vibrou quando a descobriu, ainda mais porque o cenário era também deslumbrante. É endêmica de um vale que mais parece o depósito dos pães-de-açúcar que Deus fez com a intenção inicial de brindar determinadas vastidões geográficas com um monumento cada, mas, por algum motivo, deixou-os todos amontoados por lá. São monolitos graníticos, a perder de vista, alguns mais pontiagudos que outros, marcando um ritmo de gigantes ao longo do sinuoso e límpido Pancas, um afluente do Rio Doce, próximo a Colatina, Espírito Santo. Recentemente a área toda foi transformada no Parque Nacional dos Pontões Capixabas.

Mais do que uma visita, o local merece que algum Beethoven lhe dedique uma sinfonia.


Foto de Harri Lorenzi



Parque Nacional dos Pontões Capixabas
Foto de José Tabacow

sexta-feira, 31 de agosto de 2007

Estrela 08 - Ficus, sp

Ficus sp.

Nascida epífita e espontaneamente, semeada no andar superior da floresta por algum pássaro, esta impressionante árvore resplandece além da Pérgola da Flor de Jade*, exibindo poderosas raízes que contrastam com as sombras silvestres e com a folhagem verde-escura de uma monstera escandente em seu tronco.

É uma árvore que cresceu na contra-mão do usual e comportado de-baixo-para-cima da maioria. Quem a imagina que é pra de centenária, mas foi devido a um expedientenada louvável” que, em menos de 40 anos de pura “ingratidão”, chegou a alcançar o avantajado porte: ela estrangulou sua hospedeiraoutra árvore, que lhe serviu de berço e de escada – da qual se nota ainda algum vestígio, quase totalmente emparedado em celulose.

Até o dia em que o doutor Cornelius C. Berg (talvez atualmente o maior especialista no gênero) nos visitou, tínhamos por certo que era um espécime de Ficus glabra, mas ele nos esclareceu que não (!) e explicou o óbvio ululante: simplesmente a figueira não era glabra, isto é, suas folhas de fato têm uma penugem superficial, com textura entre veludo e lixa.

Perguntei então que raios de espécie era aquela e a resposta foi a melhor que podia haver para enriquecer o acervo botânico do Sítio Roberto Burle Marx: ele disse que não sabia.

*Ver “Estrela 04”

quarta-feira, 29 de agosto de 2007

Estrela 07 - Heliconia vellerigera

Heliconia vellerigera Poepp.

Num belo dia de 1998, um jardineiro me chamou: acontecia uma coisa espantosa num dos sombrais da coleção. Estava florescendo, e pela primeira vez no Sítio, uma determinada helicônia.

Não era isso o motivo do alarme, mas o que vinha à luz: algo híbrido, entre lagosta, pela forma e pela cor, e macaco, por ser pendular e... peluda!

Ninguém no Sítio tinha visto nada parecido (em termos vegetais, pelo menos). Roberto, se a conhecia, nunca nos preveniu.

Hoje, pesquisando pelos aplicativos de busca da Internet – Google, MSN e Copernic –recebi sempre a mesma resposta: “Sua busca não obteve resultados”.

Foi identificada por ninguém menos que o professor Luiz Emygdio de Mello Filho, nosso insubstituível Conselheiro, e confirmada pelo colecionador José Abalo que teve a coleção de helicônias maior do mundo. Ele disse que esta talvez fosse do Panamá, porque em qualquer corte transversal que se faça naquele país, encontram-se coisas surpreendentes do reino da botânica.

Harri Lorenzi, no livro As Plantas Tropicais de R. Burle Marx, atribui sua procedência às florestas úmidas de Colômbia, Peru e Equador.

Enfim, está ela, em todo seu bizarríssimo esplendor.

terça-feira, 28 de agosto de 2007

Estrela 06 - Alcantarea edmundoi


Alcantarea edmundoi Leme

Alguém que me ouça falar de uma bromélia que, quando está em flor, tem 4 metros de altura certamente pensará que é conversa de pescador transposta para o reino da botânica. No entanto, trata-se da mais pura verdade. Refiro-me à Alcantarea edmundoi Leme, que floresceu em março de 2006, pela primeira vez, no Sítio.

A designação genérica foi feita em honra de Dom Pedro II, cujo nome todo era Pedro de Alcântara João Carlos Leopoldo Salvador Bibiano Francisco Xavier de Paulo Leocádio Miguel Gabriel Rafael Gonzaga – quase tão longo quanto esta Alcantarea é alta. o nome específico homenageia o botânico Edmundo Pereira (1914-1986) que dedicou a maior parte de sua carreira, no Jardim Botânico do Rio de Janeiro, à família Bromeliaceae.

Segundo o doutor Elton Leme – o botânico que a classificou e a quem agradeço as informações – esta espécie:

- é natural do litoral sul do estado do Rio de Janeiro;

- é “endêmica dos paredões graníticos justamarítimos no domínio da Mata Atlântica baixo-montana”;

- é parente próxima da Alcantarea imperialis, mas difere desta em dois aspectos principais: cresce na baixa altitude e suas flores são noturnas, sendo polinizadas por morcegos ou mariposas.


segunda-feira, 27 de agosto de 2007

Estrela 05 - Astronium graveolens



Astronium graveolens Jacq.

Dentre as árvores do Sítio, destaca-se uma que tem nome de gente: Gonçalo Alves. Porquê? Não consegui descobrir e, dentre as hipóteses explicativas, certamente muitos considerariam excessiva “forçação de barrasuspeitar de que o nome científico graveolens – cheiro forte – que serviu para denominar a deliciosa e brasileiríssima graviola, tenha nesse caso sido brutal e comicamente transformado no gentílico português. Enfim, aqui na região, de onde também é nativa, a linda árvore chama-se Batam.

Pertence à família Anacardiácea, a mesma da mangueira e do cajueiro. (Esse nome é devido ao fruto em forma de coração de algumas de suas espécies.)

É árvore que atinge 90cm de diâmetro no tronco e mais de 35m de altura. A maior do Sítio está com uns 20m. É madeira de lei, tão apreciada que (além de Tigerwood e Zebrawood) é chamada comercialmente Kingwood (madeira rei).

Decídua, floresce quando está sem folhas. Sua copa não é muito densa e a folhagem fica toda na parte superior, como um teto, o que deixa à mostra a bela estrutura, com troncos e galhos bem proporcionados, fortes e claros, quase brancos.

Sendo madeira densa, seu crescimento é relativamente lento. Isso explica o quase ineditismo de seu uso em paisagismo. Entretanto dever-se-ia considerar um aspecto: árvores de madeira forte não se quebram com facilidade. as de crescimento rápido têm madeira fraca que cedo se arruína. Vide as Cássia siamea, tão freqüentes em arborização urbana. O tempo economizado em seu crescimento relâmpago é perdido, pois ficam estropiadas, como um exército de Brancaleone, e constituem testemunho de fracasso paisagístico por longo tempo depois de satisfeito o imediatismo de quem as plantou.

Apesar da vasta área de ocorrência – do sul da Bahia ao Rio Grande do Sul – o Astronium graveolens está na lista do IBAMA de espécies ameaçadas, na categoria "Vulnerável".

Estrela 04 - Strongylodon macrobothrys



Foto Harri Lorenzi

Strongylodon macrobotrys A. Gray – a Flor de Jade.

Dentre as atrações arquitetônicas do Sítio Roberto Burle Marx está a “casa” da estrela da vez. É um pavilhão de pouco mais de 400 m², composto de dois ambientes: pérgula (Pérgula da Flor de Jade) e cozinha (Cozinha de Pedra). As maiores festas do grande anfitrião que era Burle Marx tinham seu epicentro gastronômico neste localprojeto premiado pelo Instituto dos Arquitetos do Brasil em 1963, fruto de parceria com os arquitetos Haroldo Barroso e Rubem Breitman.

Esplendidamente integrado aos jardins e à natureza, o pavilhão é um espaço que reúne esculturas diversas, um painel de cerâmica, idéias inusitadas e características geniais: algumas paredes são formadas por pedras de antigas demolições, trabalhadas em cantaria; o teto sustenta um espelho d’àgua que transborda e forma uma cortina entre a cozinha e a pérgula, caindo num lago, naturalmente povoado de plantas aquáticas. Uma diferença de 1,80m entre os níveis de piso dos dois ambientes aumenta a altura da cascata e expõe a área sob a pérgula ao domínio visual dos visitantes ao mesmo tempo em que os aproxima para o exame das flores de Strongylodon macrobothrys A. Gray. Esta espécie exótica de trepadeira, conhecida popularmente como Flor-de-Jade, exibe em outubro/novembro flores de uma inacreditável tonalidade azul-esverdeada, em profusos cachos pendentes que atingem até 2 metros de altura. Roberto apaixonou-se ao vê-la na Indonésia. Disse que o pessoal tem que afastar as flores para passar e, para evitar este inconveniente, projetou sua pérgula com pé-direito duas vezes mais alto do que o usual.

– O tempo se encarrega de completar uma idéia – costumava dizer. Esta é uma das idéias que alguns anos depois de sua morte pôde ser contemplada em plenitude.

quinta-feira, 23 de agosto de 2007

Estrela 03 - Corypha umbraculifera


Corypha umbraculifera

Um raro espetáculo acontece novamente neste agosto. Dois espécimes de Corypha umbraculifera começaram a florir no Sítio. Esta palmeira, cuja vida tem duração variável entre 40 e 80 anos, é originária do Sri Lanka (antigo Ceilão) e floresce uma vez. Em compensação, é a maior inflorescência do reino vegetal. Acima da copa de folhas em leque, que começam a secar e cair, forma-se nova copa, de oito metros de diâmetro, constituída de mais de um milhão de pequenas flores brancas. Quase um quinto das flores oferecem sementes férteis e, cumprida sua parte na tarefa de perpetuação da espécie, a palmeira morre.

A primeira floração de Corypha no SRBM teve início uma semana depois da morte de Roberto, em 1994, e soou como homenagem e confirmação, pois consta que quando ele a plantou um visitante ocasional comentara que, se a planta levava tanto tempo para florir, ele não presenciaria. Resposta de RBM: "– Assim como alguém plantou para que eu pudesse ver, estou plantando para que outros a vejam!".

Todo o processo, desde o aparecimento dos primeiros sinais de florescimento até o fim, durou dois anos e meio. Na época, enviei 1000 sementes (uma porcentagem ínfima) ao Instituto Agronômico de Campinas para testes de germinação, visando maximizar o aproveitamento das preciosas (dada a raridade do evento) sementes. Para nosso espanto, isto se revelou totalmente inútil, mas... por excessivo sucesso! – praticamente todas as sementes germinaram, mesmo as que estavam nas mais adversas condições, como sobre pedras ou dentro d’água!

As fotos mostram o início e o auge de outra estonteante floração em 1998.

quarta-feira, 22 de agosto de 2007

Estrela 02 - Eucalyptus deglupta




Eucalyptus deglupta Blume

– Um dos gigantes do reino vegetal!
Era o que se ouvia na cerimônia simples que se seguiu a um dos infalíveis saraus domingueiros no sítio de Roberto Burle Marx, no início da década de 80. Roberto plantou, naquela tarde, 3 mudas desta árvore: uma em homenagem a seu irmão Walter, outra em homenagem a sua mãe de criação Anna Piazcek, e a outra... não me lembro, mas foi homenagem a alguém também.
Algum botânico ali presente disse que esta árvore é o maior dos eucaliptos e que em seu habitat natural chega a 100m de altura, mas isto talvez seja exagero. Os sites da Internet pesquisados, não dão mais que 225 pés, ou seja, 75 metros. Não importa, já é o suficiente para num futuro não muito distante tornarem-se as maiores árvores do Rio de Janeiro, visto que com apenas vinte e poucos anos, já estão com mais de 30m.
Seu tronco, que atinge um diâmetro de 240cm, tem um belo aspecto multicolorido, responsável pelo nome vulgar em inglês: rainbow eucalyptus (eucalipto arco-íris). Outros nomes vulgares: mindanao gum, amamanit, bagras, e kamarere. Sinônimos científicos: E. naudiniana e E. schlechteri. É nativo de Papua-Nova Guiné.

quinta-feira, 16 de agosto de 2007

Estrela 01 - Ficus pseudopalma


Ficus pseudopalma Blanco

Talvez o único espécime no Brasil hoje. Asiática, natural das ilhas Filipinas, foi classificada por Francisco Manuel Blanco (1778-1845).
Esse pé de planta tem uma história intrigante:

Quando dava aulas de paisagismo na Escola de Belas Artes da UFRJ, eu mostrava aos alunos as plantas e, de preferência, as identificava. No caso dos Ficus apelava freqüentemente para o “sp.” (termo que se utiliza quando se conhece o gênero e ignora a espécie). Era Ficus sp. aqui, Ficus sp. ali, até que uma aluna mais exigente reclamou. Passei então a levar para o campo o precioso livro-do-Carauta (Professor Jorge Pedro Pereira Carauta). Cada vez que nos deparávamos com uma figueira, tentávamos identificá-la com base em seus ensinamentos, dentre os quais encontrei a primeira notícia da estrela de hoje. A mera menção de seu nome causa um choque em quem conhece um mínimo de botânica. Como seria possível um fícus parecer (pseudo) uma palmeira (palma)? Relatava que havia um no Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Fomos procurá-lo. Estava perto da obra de implementação do play-ground e, para falar a verdade, se fosse uma dracena seria talvez insignificante, mas como fícus... era um espanto!!!
Falei dele para RBM. “– Como é isto?” foi sua reação. Expliquei o que tinha acabado de aprender e elenão poderia ser diferente – mostrou-se bastante interessado.
Ao voltar ao JBRJ com outra turma, por volta de 1985, tive a desagradável surpresa de ver que o raríssimo Ficus não mais existia. Comentei com Roberto que chegou instantaneamente a um estado de indignação quase furiosa.
Nosso saudoso mestre Roberto morreu em 1994. Em 1995 fui cedido pela UFRJ para ser diretor do SRBM e, uns três anos depois, ao passar por um lugar que percorria diariamente, enxerguei algo em que mal pude acreditar. estava, na floresta, mimetizando-se em meio a folhagens diversas, meio estiolado pela falta de luz solar direta, esticando-se para cima, com uns 8 metros de altura, porém sem chances de sobrepujar suas concorrentes, o Ficus pseudopalma! Fizemos o possível em termos de podas, abrindo espaço para aquela preciosidade. O professor Benjamin Ernani Diaz, que se tornaria conselheiro do Sítio (autor, em parceria com o professor Carauta, do livro Figueiras no Brasil – Editora UFRJ, 2002 –), confirmou – era mesmo ele.

Permanece o mistério: Roberto o plantou e esqueceu ou o fez ainda sem saber seu nome? Quando? De onde veio? Quem o trouxe para o Sítio?