terça-feira, 30 de novembro de 2010

Estrelas 18 e 19 - Artocarpus incisa L. e Pitcairnia multiflora L. B. Smith



As estrelas desta vez são duas e vão juntas por “trabalharem” no mesmo filme, um que já conta com cinco versões: O Grande Motim, baseado em história verídica.
Artocarpus incisa e Pitcairnia multiflora relacionam-se de maneira tênue, é verdade, mas o fato de ser tênue, ao invés de diminuir o interesse, no meu wishful thinking, cria-o. A primeira foi o motivo da viagem tumultuada e a segunda pertence a um gênero que homenageia um parente de quem localizou a ilha onde foram se refugiar alguns dos participantes dessa aventura.
Tênue demais? Concordo, mas quando a gente vê as plantas, sabendo da história, faz algum sentido.
Corria o ano de 1787, quando partiu de Londres o navio armado Bounty, comandado pelo perseverante tenente William Bligh, com a ordem de ir até o Taiti buscar mudas da árvore da fruta-pão, por suas econômicas e alimentícias virtudes, e levá-las à Jamaica. Depois de tentar, durante um mês de ventos desfavoráveis, chegar ao Pacífico pela passagem de Drake (entre a Terra do Fogo e o Pólo Sul) teve que desistir, temporariamente, desse itinerário e atingiu seu destino mudando o curso em 180°, cruzando só um oceano a mais, passando ao sul do Cabo da Boa Esperança, Índia e Tasmânia.
No Taiti ficou cinco meses preparando as mudas e, quando finalmente partiu lotado, rumo SE, obstinado em igualar-se à Drake, foi surpreendido por parte da tripulação que jogou a carga ao mar e o abandonou para morrer, sem terra à vista, na mais vasta das imensidões líqüidas do planeta, desprovido de mapas, acompanhado de 16 oficiais e marujos leais, num barco de 7m de comprimento. Mas Bligh não se deu por vencido e empreendeu a memorável travessia de 6.700km até Timor, onde encontrou ajuda para regressar à Inglaterra.
Quanto aos amotinados, voltaram ao Taiti, recrutaram as lindas nativas e prosseguiram na fuga até uma ilha ainda não mapeada que acertadamente julgaram improvável de ser achada durante bom tempo. Tanto que há descendentes desses rebeldes lá até hoje. Ela recebeu o nome de Pitcairn, um jovem que foi o primeiro a avistá-la 20 anos antes. Sua densidade populacional é de dez habitantes por kilômetro quadrado e lá vivem 47 pessoas. Por ironia do destino, trata-se do menor grupamento humano a ter constituição própria.
O gênero Pitcairnia foi batizado em homenagem a um parente-mais-velho-do-descobridor-da-ilha-refúgio-dos-amotinados-do-barco-que-carregava-fruta-pão. Ufa! Quando verter para o alemão, vou criar uma única e longa palavra.
No Sítio temos Artocarpus incisa (Artocarpus literalmente traduzido do grego, pão-fruto) – árvore linda! – chamada taro em taitiano, e algumas espécies de Pitcairnia. Esta nem parece uma bromélia, mas um capim de flores vermelhas. – Epa! Capim com flor vermelha? E isso existe? – Capim não investe recursos biológicos para destacar suas flores pela cor (ou pelo perfume), já que sua polinização é feita por um agente cego (e anósmico ou, no mínimo, resfriado, isto é, sem olfato) – o vento. Assim entende-se mais facilmente a classificação desta espécie incomum de bromélia. Pertence a um gênero que tem mais ou menos 300 espécies, e a que Burle Marx mais utilizou em suas experiências paisagísticas é a que forma esta nuvem sanguínea sobre a folhagem.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Estrela 17 - Warscewiczia coccinea (Vahl) Klotzsch

Foto detalhe de Harri Lorenzi

Originaria da Amazonia, América Central e Caribe, a estrela desta vez é também planta nacional de Trinidad-Tobago. Seu nome científico, de tão complicado, encontra-se por aí escrito de várias formas, mas acreditamos que a correta é esta do título.

Pertence à família Rubiaceae, a mesma do café, da Mussaenda e da Ixora.

Os adjetivos associados a esta planta vão de lindíssima a tiradora-de-fôlego (breathtaking), passando por espantosa (awesome). O nome popular é rabo-de-arara e, em inglês, também é chamada “wild poinsettia” (como poinsettia é o nosso bico-de-papagaio e wild é selvagem, fica meio estranho traduzir por bico-de-papagaio-selvagem, e bico-selvagem-de-papagaio não ajuda em nada).

É planta espetacular, dotada de alto poder de deixar visitantes boquiabertos. No entanto, paradoxalmente, está ainda muito pouco utilizada em paisagismo. Talvez isto se deva à dificuldade de multiplicação desta espécie. Aqui no Sítio foram feitos muitos alporques, várias vezes, e só um vingou. Foi plantado perto da planta matriz, logo na entrada, no Largo da Guarita. É claro que vamos continuar insistindo.

Apesar da vermelhidão toda, as flores são amarelas, tal qual na Mussaenda. O recurso para atrair polinizadores é o de simular uma grande flor com várias pequenas, criando conjuntos entupidos de brácteas rubras que fazem a propaganda para os insetos e a alegria dos adoradores de jardins.




sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Estrela 16 - Solanum cernuum Vell. (ou Solanum castaneum Carvalho)


As bonitas que me desculpem, mas, para ser estrela, beleza não é fundamental.
Apelidada Árvore do Rato Morto, se existe uma flor feia, é esta. Tanto que, certa feita, depois de apresentar a um grupo de amigos a arvoreta de 3,5m de altura – na ocasião vergada ao peso de inúmeras flores minúsculas, dotadas de longos, desproporcionais, pardacentos e hirsutos pecíolos – senti-me quase culpado diante do desencanto geral. Aí, na tentativa de revigorar os ânimos abatidos pela desalentadora visão, não resisti e chutei: – Mas é medicinaaaal!
O efeito foi incrível, todos se mostraram alegremente dispostos a crer nos poderes curativos, porém tive que confessar: – É brincadeira, foi só para animar.
Anos depois, o botânico Harri Lorenzi me revelou que o nome popular do infeliz vegetal era Panacéia, ou seja, remédio para toda enfermidade. – Então eu estava certo! Foi meu primeiro pensamento, mas em seguida, fulminando esta ilusão, me baixou uma grave suspeita: ela não era medicinal coisíssima nenhuma. A crença popular, mais do que ingênua credulidade, mais do que outro me-engana-que-eu-gosto, era uma tentativa de fazer justiça, um ato de caridade. A minha foi uma reação comum, pelo visto o povo também lhe atribui alguma virtude para contrabalançar a escandalosa carência de graça.
Jamais, que eu saiba, foi (ou será) usada em paisagismo, mas em compensação é bem provável que um chazinho feito com ela não mate instantaneamente.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Estrela 15 - Dieffenbachia sp. (Costa Rica)


Logo ao adentrar o Sombral Graziela Barroso, os visitantes geralmente se espantam com o tamanho descomunal de umas plantas, trazidas por Burle Marx das selvas da Costa Rica, que lembram muito as popularmente chamadas “comigo-ninguém-pode”. Mas não sendo da espécie picta, aquela comum e que sabemos ser venenosa, pertencem ao mesmo gênero Dieffenbachia, ao qual o povão atribui poderes de afastar “mau-olhado”. Por isso é que as nossas agigantadas Dieffenbachiae aqui estão apelidadas de “comigo-ninguém-mas-ninguém-mesmo-pode”, fazendo, cum grano salis, corresponder tamanhos e poderes, o que, óbvio, não é necessariamente verdade.

Sendo um de nossos afazeres mais importantes o back up do acervo vegetal, há algum tempo fizemos outro grupo, com mudas dessa mesma planta, em outro lugar do SRBM, onde vieram a florir agora (fevereiro de 2009).

O gênero Dieffenbachia tem cerca de 140 espécies, 13 da Costa Rica. Se alguém conseguir identificar esta espécie, por favor me avise.


quinta-feira, 11 de outubro de 2007

Estrela 14 - Ficus mysorensis var pubescens


Ficus mysorensis B. Heyne ex Roth var. pubescens Roth.

A parte meridional da Índia tem duas costas que formam os lados de um ângulo agudo apontado para o sul: a do Coromandel, banhada pelo golfo de Bengala, e a ocidental que é a Costa do Mysore, frente ao Mar da Arábia. A notória perspicácia dos meus leitores me autoriza supor que ambos já adivinharam de onde vem a estrela desta vez.

Aqui no Sítio, ela reina absoluta, superembasada num raizame que mais parece um congresso de sucuris promíscuas e que capta irresistivelmente a atenção de TODOS os visitantes.

Fazendo jus à má fama das raízes dos ficus, estas já deram uma rasteira mortal num pau-rei (Pterygota brasiliensis) vizinho. Agora, tudo indica que se preparam para desferir um golpe de misericórdia num incauto pau-ferro (Caesalpinia ferrea).

Quando cheguei ao SRBM para ser diretor, em 1995, estas raízes espaventosas ficavam invisíveis, submersas na folhagem oportunista de uma espécie de jibóia muito comum, o pé-de-galinha (Syngonium podophyllum). Roberto Burle Marx nos últimos anos de vida não as alcançava enxergar (sua deficiência visual já não permitia miradas mais longas que uns 10 metros) e seus ajudantes na época – ecologistas ferrenhos e ciosos defensores do patrimônio – nunca se atreveram a desnudá-las por conta própria com receios de sei lá o quê, talvez agredir a ecologia, talvez desfalcar o acervo do Sítio.

Hoje, o caudaloso afloramento radicular é um atrativo importante que rende até dividendos: já serviu de cenário para um generoso comercial de televisão do tipo avô-com-neto-curtindo-a-natureza e, vira-e-mexe, é contratado para figurar em fotos de moda. Sonho com o dia de ver La Bündchen enroscada em um de seus (nossos) tentáculos.

Seus figos são dourados e peludos, o que distingue a variedade, pois pubescens significa “característica de quem atingiu a puberdade”, daí os pêlos (esses botânicos... tsc). E quando tais frutos, que também são flores, com perdão da palavra, ornam a figueira, como diria Roberto, “– É ouro sobre azul!”.


Foto de 2003, quando o pau-rei ainda estava vivo

sexta-feira, 14 de setembro de 2007

Estrela 13 - Chloroleucon tortum



Chloroleucon tortum (Mart.) Barneby & J.W.Grimes

Chamada vulgarmente de Jurema, Jacaré, Tataré e outros nomes, esta árvore nativa de Búzios e Cabo Frio (segundo Pio Corrêa vai do Rio de Janeiro até o Pará) é uma leguminosa incrivelmente retorcida. Até seu legume (legume em botaniquês designa fruto seco que se abre por duas fendas laterais) contorce-se a ponto de formar, não uma vagem, com silhueta de vagem, como as das outras leguminosas, mas uma bolota enovelada que lhe valeu o antigo nome científico Pythecolobium que significa orelha de macaco.

Roberto Burle Marx a usou bastante em jardins – há vários grupos no Aterro do Flamengo e nos jardins da Lagoa Rodrigo de Freitas no Rio de Janeiro – e, maravilhado, fez inúmeros desenhos do exemplar do SRBM, nos quais ressaltou o tronco bicolor, descamante e convulsionado, onde a aversão desta espécie à linha reta é mais conspícua.

Desenho de R. Burle Marx - 1964

terça-feira, 11 de setembro de 2007

Estrela 12 - Copernicia cerifera


Copernicia cerifera M.

Esta é a Carnaubeira ou Copernicia cerifera, a palmeira que nos dá a cera.

O Sr. Johnson, um dos da Johnson & Johnson, comprou em Fortaleza uma área de mais de um milhão e quatrocentos mil metros quadrados (que depois doou à Universidade Federal do Ceará) para testar quantas Copernicia pudesse e chegou à conclusão de que a cera da velha e boa carnaúba era realmente a mais adequada.

Roberto Burle Marx viu nela outras qualidades e a usava em paisagismo. Segundo Pio Correa, chega a 40m de altura e a 200 anos de idade.

No Sítio existem três delas. Possuem aspecto quase extraterrestre, tal a estravagância de feições que absolutamente não se prestam a poetices do tipovento que balança as folhas...” etc.. Não! Esses rígidos leques fazem algo muito diverso de balançar suavemente: tremeluzem (o verbo existe), isto é, cintilam ao sol enquanto vibram em alta freqüência à mais leve brisa. No fuste, as bainhas remanescentes das folhas descartadas acrescentam estilo (etimologicamente estilo = fuste) ao design eriçado, reafirmando a originalidade de uma das mais belas palmeiras brasileiras.

Estrela 11 - Pandanus baptisti


Pandanus baptisti Hort.

Existem mais de 700 espécies deste gênero, com 1216 nomes encontrados. Esta é a última, de mais ou menos meia dúzia, a ser utilizada em paisagismo por aqui.

Para ser estrela, tamanho não é documento. É o caso deste pândanus, um pigmeu. Diferente de seus primos agigantados, os P. pacificus e P. tectorius, a estrela desta vez funciona como planta de cobertura de terreno.

Para quem prefere não ter que ficar de cócoras, arrancando mato, apresenta a preciosa vantagem de alastrar-se (alguns pândanus realmente caminham) sem permitir que ervas invasoras sobrevivam no mesmo canteiro.

Possui, como mais expressivas características, a cor – uma vibrante e luminosa mistura de verde e amarelo em finas listras – e a anfibiovalência – palavra (cuja inexistência acaba de ser corrigida) que designa sua capacidade recém descoberta (ao menos, por nós) de viver tanto na terra quanto em canteiros aquáticos que simulem alagados rasos.

Lembrei-me que batismo significa imersão. Fui pesquisar se esse baptisti se refere a isso ou é homenagem a algum Batista, mas não achei nada. Batizar também significa nomear. Talvez o Hort. estivesse cansado de tanto inventar nomes, e colocou esse para lembrá-lo do que tinha que fazer. Absurdo? Pois consta que o grande Linnaeus, pelo mesmo motivo, batizou um gênero inteiro como Quisqualis que significa ‘quem, o quê’. Enfim, se alguém souber a verdade, por favor, me avise.

As fotos mostram-no na tradicional utilização, em canteiro terrestre, e em plena função no seu novo emprego aquático.

O endereço do habitat original dos Pandanus baptisti é: Ilha Nova Britânia, Arquipélago Bismarck, Papua-Nova Guiné.

quarta-feira, 5 de setembro de 2007

Estrela 10 - Euryale ferox



Euryale ferox Salisb.

Quem seria capaz de imaginar que existisse no planeta algum vegetal comparável à Victoria regia? Pois... existe! Não tão espetacular, é claro – seria exigir muitomas, ainda assim, incrível. Ela perde da Victoria, nossa íntima, em dois itens importantes: não tem aquelas conspícuas paredes verticais de 15cm nas bordas das folhas e sua flor é muito menor. Mas as folhas possuem área equivalente e a mesma estrutura imersa, capaz de grandes vãos. Além disso, o desenho delicado em linhas vermelhas que interligam os numerosos espinhos (daí o ferox) da vasta superfície é uma autêntica chinoiserie.

Trata-se da Euryale ferox do Yang-tse e da Asia tropical. Pertence à familia Nymphaeaceae ou, às vezes – o que parece exagero de preciosismo botânicoEuryalaceae.

É a mais recente estrela do Sítio. Em menos de 6 semanas de plantada apresentava folhas com 1,5m de diâmetro.

Consta que suas sementes são comestíveis e utilizadas na medicina chinesa. A tradução do nome, via o inglês foxnut, é castanha de raposa.

Nas fotos um detalhe notável: o botão da flor, quando emerge, abre caminho através da própria folha caso esta represente obstáculo. No afã de aparecer fora d’água nem se dá ao trabalho de contorná-la, tornando-se o único ser vivo não humano auto-piercing de que se tem notícia.

segunda-feira, 3 de setembro de 2007

Estrela 09 - Merianthera burle-marxii

Merianthera burle-marxii Wurdack

A estrela desta vez é um verdadeiro ‘Popeye’ do reino vegetal. Não, nada a ver com espinafre. A razão do paralelo está na anatomia singular do simpático personagem: assim como seus antebraços são mais robustos que os próprios braços, também os galhos da planta, ao contrário do que seria de se esperar, engrossam perto das extremidades.

Trata-se de um arbusto atarracado que ainda produz lindas flores de tonalidade entre violeta e vermelho. Pertence à família Melastomataceae (bocas-negras), a mesma das Quaresmeiras.

Roberto vibrou quando a descobriu, ainda mais porque o cenário era também deslumbrante. É endêmica de um vale que mais parece o depósito dos pães-de-açúcar que Deus fez com a intenção inicial de brindar determinadas vastidões geográficas com um monumento cada, mas, por algum motivo, deixou-os todos amontoados por lá. São monolitos graníticos, a perder de vista, alguns mais pontiagudos que outros, marcando um ritmo de gigantes ao longo do sinuoso e límpido Pancas, um afluente do Rio Doce, próximo a Colatina, Espírito Santo. Recentemente a área toda foi transformada no Parque Nacional dos Pontões Capixabas.

Mais do que uma visita, o local merece que algum Beethoven lhe dedique uma sinfonia.


Foto de Harri Lorenzi



Parque Nacional dos Pontões Capixabas
Foto de José Tabacow

sexta-feira, 31 de agosto de 2007

Estrela 08 - Ficus, sp

Ficus sp.

Nascida epífita e espontaneamente, semeada no andar superior da floresta por algum pássaro, esta impressionante árvore resplandece além da Pérgola da Flor de Jade*, exibindo poderosas raízes que contrastam com as sombras silvestres e com a folhagem verde-escura de uma monstera escandente em seu tronco.

É uma árvore que cresceu na contra-mão do usual e comportado de-baixo-para-cima da maioria. Quem a imagina que é pra de centenária, mas foi devido a um expedientenada louvável” que, em menos de 40 anos de pura “ingratidão”, chegou a alcançar o avantajado porte: ela estrangulou sua hospedeiraoutra árvore, que lhe serviu de berço e de escada – da qual se nota ainda algum vestígio, quase totalmente emparedado em celulose.

Até o dia em que o doutor Cornelius C. Berg (talvez atualmente o maior especialista no gênero) nos visitou, tínhamos por certo que era um espécime de Ficus glabra, mas ele nos esclareceu que não (!) e explicou o óbvio ululante: simplesmente a figueira não era glabra, isto é, suas folhas de fato têm uma penugem superficial, com textura entre veludo e lixa.

Perguntei então que raios de espécie era aquela e a resposta foi a melhor que podia haver para enriquecer o acervo botânico do Sítio Roberto Burle Marx: ele disse que não sabia.

*Ver “Estrela 04”

quarta-feira, 29 de agosto de 2007

Estrela 07 - Heliconia vellerigera

Heliconia vellerigera Poepp.

Num belo dia de 1998, um jardineiro me chamou: acontecia uma coisa espantosa num dos sombrais da coleção. Estava florescendo, e pela primeira vez no Sítio, uma determinada helicônia.

Não era isso o motivo do alarme, mas o que vinha à luz: algo híbrido, entre lagosta, pela forma e pela cor, e macaco, por ser pendular e... peluda!

Ninguém no Sítio tinha visto nada parecido (em termos vegetais, pelo menos). Roberto, se a conhecia, nunca nos preveniu.

Hoje, pesquisando pelos aplicativos de busca da Internet – Google, MSN e Copernic –recebi sempre a mesma resposta: “Sua busca não obteve resultados”.

Foi identificada por ninguém menos que o professor Luiz Emygdio de Mello Filho, nosso insubstituível Conselheiro, e confirmada pelo colecionador José Abalo que teve a coleção de helicônias maior do mundo. Ele disse que esta talvez fosse do Panamá, porque em qualquer corte transversal que se faça naquele país, encontram-se coisas surpreendentes do reino da botânica.

Harri Lorenzi, no livro As Plantas Tropicais de R. Burle Marx, atribui sua procedência às florestas úmidas de Colômbia, Peru e Equador.

Enfim, está ela, em todo seu bizarríssimo esplendor.

terça-feira, 28 de agosto de 2007

Estrela 06 - Alcantarea edmundoi


Alcantarea edmundoi Leme

Alguém que me ouça falar de uma bromélia que, quando está em flor, tem 4 metros de altura certamente pensará que é conversa de pescador transposta para o reino da botânica. No entanto, trata-se da mais pura verdade. Refiro-me à Alcantarea edmundoi Leme, que floresceu em março de 2006, pela primeira vez, no Sítio.

A designação genérica foi feita em honra de Dom Pedro II, cujo nome todo era Pedro de Alcântara João Carlos Leopoldo Salvador Bibiano Francisco Xavier de Paulo Leocádio Miguel Gabriel Rafael Gonzaga – quase tão longo quanto esta Alcantarea é alta. o nome específico homenageia o botânico Edmundo Pereira (1914-1986) que dedicou a maior parte de sua carreira, no Jardim Botânico do Rio de Janeiro, à família Bromeliaceae.

Segundo o doutor Elton Leme – o botânico que a classificou e a quem agradeço as informações – esta espécie:

- é natural do litoral sul do estado do Rio de Janeiro;

- é “endêmica dos paredões graníticos justamarítimos no domínio da Mata Atlântica baixo-montana”;

- é parente próxima da Alcantarea imperialis, mas difere desta em dois aspectos principais: cresce na baixa altitude e suas flores são noturnas, sendo polinizadas por morcegos ou mariposas.


segunda-feira, 27 de agosto de 2007

Estrela 05 - Astronium graveolens



Astronium graveolens Jacq.

Dentre as árvores do Sítio, destaca-se uma que tem nome de gente: Gonçalo Alves. Porquê? Não consegui descobrir e, dentre as hipóteses explicativas, certamente muitos considerariam excessiva “forçação de barrasuspeitar de que o nome científico graveolens – cheiro forte – que serviu para denominar a deliciosa e brasileiríssima graviola, tenha nesse caso sido brutal e comicamente transformado no gentílico português. Enfim, aqui na região, de onde também é nativa, a linda árvore chama-se Batam.

Pertence à família Anacardiácea, a mesma da mangueira e do cajueiro. (Esse nome é devido ao fruto em forma de coração de algumas de suas espécies.)

É árvore que atinge 90cm de diâmetro no tronco e mais de 35m de altura. A maior do Sítio está com uns 20m. É madeira de lei, tão apreciada que (além de Tigerwood e Zebrawood) é chamada comercialmente Kingwood (madeira rei).

Decídua, floresce quando está sem folhas. Sua copa não é muito densa e a folhagem fica toda na parte superior, como um teto, o que deixa à mostra a bela estrutura, com troncos e galhos bem proporcionados, fortes e claros, quase brancos.

Sendo madeira densa, seu crescimento é relativamente lento. Isso explica o quase ineditismo de seu uso em paisagismo. Entretanto dever-se-ia considerar um aspecto: árvores de madeira forte não se quebram com facilidade. as de crescimento rápido têm madeira fraca que cedo se arruína. Vide as Cássia siamea, tão freqüentes em arborização urbana. O tempo economizado em seu crescimento relâmpago é perdido, pois ficam estropiadas, como um exército de Brancaleone, e constituem testemunho de fracasso paisagístico por longo tempo depois de satisfeito o imediatismo de quem as plantou.

Apesar da vasta área de ocorrência – do sul da Bahia ao Rio Grande do Sul – o Astronium graveolens está na lista do IBAMA de espécies ameaçadas, na categoria "Vulnerável".

Estrela 04 - Strongylodon macrobothrys



Foto Harri Lorenzi

Strongylodon macrobotrys A. Gray – a Flor de Jade.

Dentre as atrações arquitetônicas do Sítio Roberto Burle Marx está a “casa” da estrela da vez. É um pavilhão de pouco mais de 400 m², composto de dois ambientes: pérgula (Pérgula da Flor de Jade) e cozinha (Cozinha de Pedra). As maiores festas do grande anfitrião que era Burle Marx tinham seu epicentro gastronômico neste localprojeto premiado pelo Instituto dos Arquitetos do Brasil em 1963, fruto de parceria com os arquitetos Haroldo Barroso e Rubem Breitman.

Esplendidamente integrado aos jardins e à natureza, o pavilhão é um espaço que reúne esculturas diversas, um painel de cerâmica, idéias inusitadas e características geniais: algumas paredes são formadas por pedras de antigas demolições, trabalhadas em cantaria; o teto sustenta um espelho d’àgua que transborda e forma uma cortina entre a cozinha e a pérgula, caindo num lago, naturalmente povoado de plantas aquáticas. Uma diferença de 1,80m entre os níveis de piso dos dois ambientes aumenta a altura da cascata e expõe a área sob a pérgula ao domínio visual dos visitantes ao mesmo tempo em que os aproxima para o exame das flores de Strongylodon macrobothrys A. Gray. Esta espécie exótica de trepadeira, conhecida popularmente como Flor-de-Jade, exibe em outubro/novembro flores de uma inacreditável tonalidade azul-esverdeada, em profusos cachos pendentes que atingem até 2 metros de altura. Roberto apaixonou-se ao vê-la na Indonésia. Disse que o pessoal tem que afastar as flores para passar e, para evitar este inconveniente, projetou sua pérgula com pé-direito duas vezes mais alto do que o usual.

– O tempo se encarrega de completar uma idéia – costumava dizer. Esta é uma das idéias que alguns anos depois de sua morte pôde ser contemplada em plenitude.